Há campos de trigo imensamente vastos, sob um céu lúgubre... e não desisti ainda de tentar expressar a tristeza e a solidão mais extrema... Chego quase a acreditar que essas pinturas dirão a você aquilo que não consigo por em palavras... Van Gogh para Theo
03.01.11
e ele não poderia faltar

(como sempre, perfeito)

"Foi este ano centenário de tantas coisas, cheio de novidades e peripécias no jogo das nações deste mundo. Em todas as lutas e episódios do Ocidente e do Oriente soprou um espírito tão antigo, quanto novo, de liberdade. Ele muitas vezes terá feito balançar também algo no íntimo das pessoas. Agora fique quieta aí, agasalhada no seu canto. Mas, se você se erguer na cama e chegar lentamente até a janela para ver lá fora, pela vidraça embaçada, a rua escura e suja, e voltar ainda mais triste para a cama, pensa nesta notícia à-toa que eu lhe mando, e é tudo que eu lhe posso mandar: ainda há sol, ainda há mar e o vento do mar".
Ruben Braga, Ainda há sol, ainda há mar. In: Braga, Ruben. Um cartão de Paris. Rio de Janeiro: Record, 1997. 46-48.

em dia de chuva

(não vi o sol este ano ainda...)

Oração ao sol da manhã
Preciso sonhar um sonho novo,
preciso saber perder um velho sonho,
preciso gerar um novo sonho
e crer nas sempre novas possibilidades
que o que há de vir me oferece.
Preciso encontrar o que mereço em outro endereço,
e que seja logo, que seja breve.
Preciso daquela esperança de um dia após o outro
que a travessia do tempo me concede.
Ó futuro, não me deserde!
(Elisa Lucinda).

Deus, modalidade

Quando caminho pela manhã
no colo do dia fresquinho
novinho em folha
com azul no céu
e música de passarinho
quem olha
não vê quem me leva
quem olha pensa que é o vento que me levou.

Ninguém conhece minha reza,
é no colo de Deus que eu vou.

Elisa Lucinda
(para começar o ano)

12.10.08
São Cosme e São Damião

Escrevo no dia dos meninos. Se e fosse escolher santos, escolheria sem dúvida nenhuma São Cosme e São Damião, que morreram decapitados já homem feitos, mas sempre são representados como dois meninos, dois gêmeos de ar bobinho, na cerâmica ingênua dos santeiros do povo.
São Cosme e São Damião passaram o dia de hoje visitando os meninos que estão com febre e dor de cabeça por causa da asiática, e deram muitos doces e balas aos meninos sãos. E diante deles sentimos vontade de ser bons meninos e também de ser meninos bons. E rezar uma oração.

"São Cosme e São Damião, protegei os meninos de Brasil, todos os meninos e meninas do Brasil.
Protegei os meninos ricos, pois toda a riqueza não impede que eles possam ficar doentes ou tristes, ou viver coisas tristes, ou ouvir ou ver coisas ruins.
Protegei os meninos dos casais que não se separam e se dizem coisas amargas e fazem coisas que os meninos vêem, ouvem, sentem.
Protegei os filhos dos homens bêbados e estúpidos, e também os meninos das mães histéricas ou ruins.
Protegei o menino mimado a quem os mimos podem fazer mal e protegei os órfãos, os filhos sem pai, e os enjeitados.
Protegei o menino que estuda e o menino que trabalha, e protegei o menino que é apenas moleque de rua e só sabe pedir esmola e furtar.
Protegei ó São Cosme e São Damião! - protegei os meninos protegidos pelos asilos e orfanatos, e que aprendem a rezar e obedecer e andar na fila e ser humildes, e os meninos protegidos pelo SAM, ah! São Cosme e São Damião, protegei muitos os pobres meninos protegidos!
E protegei sobretudo os meninos pobres dos morros e dos mocambos, os tristes meninos da cidade e os meninos amarelos, e barrigudinhos da roça, protegei suas canelinhas finas, suas cabecinhas sujas, seus pés que podem pisa em cobra e seus olhos que podem pegar tracoma - e afastai de todo perigo e de toda maldade os meninos do Brasil, os louros e os escurinhos, todos os milhões de meninos deste grande e pobre e abandonado meninão triste que é o nosso Brasil, ó Glorioso São Cosme, Glorioso São Damião!"

Setembro, 1957.
Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas, Record, 2002. pp. 328-329.

08.10.08
descobri

Nasci para ser sinhazinha: ler, bordar, tricotar.

07.10.08
desabafo

Definitivamente não acredito nem em sindicato nem em homenagens.

24.05.07
e não é?

Afinal, ele é médico e está lá com os ouvidos atentos e a verve inspirada para ajudar, cuidar. Precisa ser franco o tempo todo, e assim o é com apenas uma exceção. Um assunto que ele menciona para poucos (“porque poucos entendem”, como ele diz), mas que percebe em todos: as pessoas se apegam às suas próprias aflições. E olhe que ele não está falando de doenças ou sintomas físicos, mas de um modo de viver a vida em desarmonia e criar repetidas vezes problemas e inquietudes. Foi isso que ele me mostrou, sobre mim mesmo. Estava lá na minha ficha, pude conferir, estupefato. Após oito anos de consultas, retornos, abandonos, freqüências e tratamentos, eu voltava ao consultório para repetir as queixas. Uma dor aqui, outra acolá, todas causadas pelo mesmo jeito de viver. Pelo jeito que criei ou, até, pelo jeito que eu sou – e isso é difícil de admitir.

Revista Vida Simples. Grifo meu.

26.03.07

Esse sapato não está aqui há pouco tempo. Ele tá aqui há muito tempo. Eu fico pensando no caminho. O caminho que uma possível pessoa tenha percorrido (...) E foi deixando pedaços pelo caminho. E são histórias. (...). No Riacho Fundo II as pessoas são um pouco que pedaços no caminho porque cada pessoa tem uma história e vai marcando a vida de outros. E aquele pedacinho fica lá e marca mesmo.


Simone Mesquita
20/10/06, sala K258, UCB, Brasília.

29.10.06
11.10.06
na falta de lucidez...

O homem lúcido
O homem lúcido sabe que a vida é uma carga tamanha de acontecimentos e emoções que nunca se entusiasma com ela, assim como não teme a morte. O homem lúcido sabe que viver e morrer são o mesmo em matéria de valor, posto que a Vida contém tantos sofrimentos que a sua cessação não pode ser considerada um mal.

O homem lúcido sabe que é o equilibrista na corda bamba da existência. Sabe que, por opção ou acidente, é possível cair no abismo, a qualquer momento, interrompendo a sessão do circo.

Pode também o homem lúcido optar pela Vida. Aí então, ele esgotará todas as suas possibilidades. Passeará por seu campo aberto e por suas vielas floridas. Saberá ver a beleza em tudo. Terá amantes, amigos, ideais. Urdirá planos e os realizará. Resistirá aos infortúnios e até às doenças. E, se atingido por algum desses emissários, saberá suportá-los com coragem e mansidão.

Morrerá o homem lúcido de causas naturais e em idade avançada, cercado por filhos e netos que seguirão sua magnífica aventura. Pairará então, sobre sua memória uma aura de bondade. Dir-se-á: aquele amou muito e fez bem às pessoas.

A justa lei máxima da natureza obriga que a quantidade de acontecimentos maus na vida de um homem iguale-se sempre à quantidade de acontecimentos favoráveis. O homem lúcido que optou pela Vida, com o consentimento dos Deuses, tem o poder magno de alterar esta lei. Na sua vida, os acontecimentos favoráveis estarão sempre em maioria.

Esta é uma cortesia que a Natureza faz com os homens lúcidos.

texto Caldaico(*) do VI século a.C.

... que ando sentindo em mim e por aí.

17.07.06
intrusa

faz tanto tempo que não passo por aqui que estou sem jeito... Pareço visita não convidada.

Lu, obrigada por seu recado!


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auto piedade

Quando choramos nossas perdas ficamos tão transtornados, que a gente chora, para o bem ou para o mal, também por nós mesmos. Pelo que nós éramos. Pelo que não somos mais. Pelo que um dia não seremos de modo algum

Joan Didion, O ano do pensamento mágico, p. 194

16.04.06
e ao fim do dia...

Agorinha mesmo, do nada, resolvi olhar meus livros. E do nada abri "Contos de Aprendiz" do Drummond. No sumário, numa caligrafia que perdi há tempos:

"eu agradeço a Você, Deus, por este dia maravilhoso;
pelos espíritos verdejantes das árvores e o
sonho azul do céu; e por tudo que é natural,
que é infinito, que é sim.
(eu, que morri, estou vivo outra vez,
e este é o aniversário do sol;
este é o
aniversário da vida e do amor e das asas:
o acontecimento ilimitável da grande
alegria da terra)"
e.e. cummings.

Boa Páscoa

Cante com ela

28.02.06
Amanhã não tem mais

Se você está aí navegando hoje, terça-feira gorda, provavelmente não gosta de carnaval. Ou está só dando um tempo para ver se pinta na caixa postal um sinal daquela troca de e-mails depois de um bloco. Ou descansa da folia tentando entender, pelo mundo afora, por que aqui, no Bananão (copyright by Ivan Lessa), esta época do ano pode ser resumida numa algaravia – palavrinha bonita, que poderia entrar em samba-enredo – de marchinhas que quase ninguém sabe mais, axés aeróbicos e refrões de animar torcida de futebol.

28.02.2006, por Paulo Roberto Pires No Mínimo.


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